| O caminho para entender a bondade |
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Jigme Tromge Rinpoche
Seres sencientes são como nossas mães. Dentro da tradição budista, temos tanto a autoridade dos textos sagrados quanto o raciocínio correto para atestar esse fato. Em um do sutras, Buda declarou que se alguém contasse todas as partículas de terra deste nosso grande planeta, o número de vezes que um único ser foi nossa mãe seria maior que aquele número de partículas. O grande Nagarjuna da Índia budista condensou o mesmo exemplo em um verso, em uma de suas obras. Se analisarmos, podemos perceber que certos tipos de seres, a bem da verdade, renascem milagrosamente. Os seres dos infernos e os deuses, entram nos seus mundos completamente formados, sem passar pelo processo de nascimento pelo útero ou pelo ovo, sem precisar ter pais. Mas, no caso de outros seres, os que nós podemos ver diretamente com nossos olhos, seres humanos e formas de vida animal, passam por um processo através do qual macho e fêmea procriam e se tornam os pais de uma nova geração. Até mesmo as formigas em um formigueiro, cujo número nem podemos começar a contar, vêm de ovos e esses ovos vêm de uma mãe. Outras inúmeras formas de vida estão renascendo continuamente e, em geral, envolvem a interferência de uma mãe, concebendo e sustentando uma criança, ou, botando um ovo que produz um descendente. Reconhecer esta situação incrível, na qual todo ser foi tantas vezes nossa mãe, é reconhecer que todo ser foi carinhoso, gentil e preocupado conosco como nossos pais nesta vida. O que querem todos os seres que nos mostraram esta grande bondade maternal? Querem simplesmente ser felizes, mas não sabem como. O grande Shantideva da Índia escreveu: "Embora todos desejem ser felizes, na sua ignorância, combatem a própria felicidade como se fosse seu pior inimigo." Qual é a verdadeira causa da felicidade? A verdadeira causa da felicidade é a virtude, que quer dizer fé, que quer dizer desejo de libertar a si mesmo e aos outros do ciclo de renascimentos, que quer dizer boditchita: a preocupação amorosa e compassiva com o bem-estar dos outros. Todas são qualidades virtuosas da mente. Os resultados dessas qualidades virtuosas e as ações que são motivadas por elas geram, a curto prazo, um grau mais alto de renascimento como um deus ou um humano, e, por último, o estado búdico.
Todos os seres sencientes sofrem uma variedade inconcebível de dor e sofrimento. No reino dos infernos, eles sofrem calor e frio intensos. No reino dos pretas, ou espíritos atormentados, a fonte primária de sofrimento é a privação devido a intensa fome e sede. No reino animal, o sofrimento principal é imposto pela estupidez e pela ignorância que forçam os animais a atacar outros, a servir os humanos, ou, de algum outro modo, a serem dominados por outras espécies. No reino humano, as formas primárias de sofrimento são nascimento, velhice, doença e morte. No reino dos semideuses, o sofrimento primário acontece devido ao intenso ciúme e às disputas e discussões que ele gera. E no dos devas, ou reino dos deuses, a fonte principal de sofrimento é rebaixar desse estado relativamente alto para estados mais baixos e dolorosos. Se falarmos sobre sofrimento de um modo mais sucinto, poderemos observar que ele se manifesta em nossa própria experiência de três modos básicos: há o sofrimento da mudança, o sofrimento sobre o sofrimento e um nível sutil de negatividade e sofrimento que tudo permeia. O primeiro tipo, o sofrimento da mudança, ocorre porque tudo, por natureza, é impermanente. Por exemplo, você poderia acordar feliz numa manhã, mas por volta do meio-dia pode ter ouvido algo ou pode ter encontrado algo que mudou tudo completamente e o fez infeliz. A felicidade que você sentiu pela manhã se foi, tudo mudou. O segundo tipo de sofrimento, o sofrimento sobre o sofrimento, é muito mais desagradável de se falar porque é o sofrimento seguido de outro sofrimento. A perda de um de seus pais, por exemplo, poderia ser seguida imediatamente pela morte de outra pessoa muito próxima que é seguida imediatamente por alguma outra tragédia. Talvez você perca sua fortuna, e, ainda por cima, alguma outra circunstância ruim surge em sua vida. É uma coisa atrás da outra. O terceiro tipo de sofrimento é muito mais sutil. Você pode pensar consigo mesmo, "Minha vida está baseada em ações positivas; não cometo nenhuma ação prejudicial. Tenho o suficiente para pôr no corpo, tenho bastante comida para comer, e estou contente com isso". Mas ainda há algum nível de envolvimento com o sofrimento e com ações negativas que não podemos evitar. Por exemplo, para que o arroz que você come tenha chegado a sua mesa, foi plantado, foi colhido e foi processado. Durante cada um desses passos, seres sencientes estavam sendo mortos, por exemplo, insetos. Carma negativo estava sendo gerado, ainda que inadvertidamente. Há um nível de sofrimento subliminar que atinge tudo que nós entramos em contato neste mundo. É muito importante entendermos que todo ser que foi nossa mãe em alguma época, é atormentado por esse sofrimento, pois isto imprime em nós a necessidade de usarmos nossa existência humana preciosa da melhor forma possível, para retribuir a bondade de cada um desses seres. Por essa razão mantemos em nossa prática uma consciência do fato de que todos os seres foram nossas mães, uma consciência da bondade deles, uma intenção de retribuir sua bondade, uma consciência profunda e uma empatia pelo seu sofrimento. Quando pela primeira vez damos origem à boditchita como um passo formal no caminho, o fazemos num contexto ritual no qual um professor transmite o voto de bodisatva em uma cerimônia formal. O objetivo disto é nos conduzir ao caminho da visão por meio da qual a verdadeira natureza da realidade fica diretamente evidente, o que é o aspecto supremo de boditchita. Isso não depende de uma cerimônia, mas da nossa própria transformação interna através da prática. Em todos os ianas budistas, ou abordagens espirituais, inclusive no verdadeiro pináculo das abordagens, é dada muita importância a essas qualidades da mente que nós chamamos as "quatro qualidades incomensuráveis": amor, compaixão, regozijo e equanimidade. Quando examinadas teoricamente, essas qualidades são discutidas nesta ordem. Mas quando estamos realmente fazendo a prática espiritual, é importante começar com a equanimidade. Equanimidade Pode muito bem acontecer, devido à poderosa conexão cármica, que um inimigo nesta vida renasça como nosso melhor amigo na próxima. Um inimigo não é sempre um inimigo. Alguém que parece ser seu inimigo pode, por suas ações, gerar circunstâncias nas quais você entra em contato com o Darma, o que será de enorme benefício – a melhor coisa que jamais lhe aconteceu. Agora, aquela pessoa é um inimigo ou não? Assim, sempre responder a uma pessoa que está se comportando de um modo muito negativo com você como se ela fosse sua inimiga não faz sentido. Seu amigo mais íntimo pode acabar sendo seu pior inimigo na próxima vida. A única coisa importante é que há uma conexão cármica poderosa entre vocês. Se é positiva ou negativa é algo que nós não podemos predizer. Nada é estável ou previsível. Um grande mestre budista cujo nome era Katyayana, uma vez viu uma mulher segurando uma criança no colo e comendo um peixe, enquanto um cachorro tentava abocanhar, atirando-se contra ela e implorando por comida. Ela espantou o cachorro para longe e então lançou-lhe os ossos e ele começou a devorá-los. O mestre pôde ver com a sua grande percepção que a criança tinha sido a pior inimiga da mulher em uma vida anterior, que o peixe tinha sido seu pai e que o cachorro tinha sido sua mãe. Katyayana disse: "Ver alguém comendo a carne de seu pai e batendo na mãe, ver uma esposa que rói os ossos do seu marido e ver alguém segurando o pior inimigo no colo como se fosse o seu ente mais próximo e querido – o samsara é verdadeiramente absurdo!" A imprevisibilidade do samsara não está limitada aos seres ordinários. Até mesmo os seres altamente realizados estão sujeitos a isto, pelo menos em um nível convencional. Por exemplo, enquanto o grande mestre Padmasambava estava ensinando no Tibete a convite do rei de Darma, Trisong Detsen, a filha mais jovem do rei morreu. O rei estava muito confuso, porque tendo nascido filha de um rei poderoso, e tendo conhecido o grande mestre Padmasambava, ela deveria ter tido um carma verdadeiramente bom. Por que, então, perguntou ele a Padmasambava, era necessário que ela morresse tão jovem? Padmasambava respondeu: "Ela não renasceu como sua filha devido a seu bom carma. A razão data de uma vida muito anterior, quando você e eu éramos irmãos e estávamos ocupados construindo a grande estupa de Boudhanath. Um dia, uma mosca lhe picou. Você a esmagou e matou, estabelecendo uma dívida cármica entre vocês. A consciência da mosca, no fim, renasceu como sua filha. O fato dela ser sua filha não tem relação com o fato de você ser um grande e poderoso rei, mas, sim, de você ter esmagado aquela mosca em uma vida passada." Esse era o rei do Darma que Padmasambava predisse que seria um bodisatva de oitavo nível. Ele não era uma pessoa comum, mas alguém com realização espiritual muito elevada, que não obstante descobriu que a imprevisibilidade do carma também era parte da vida dele. Amor Esse amor é uma qualidade que podemos expressar física, verbal e mentalmente. Expressamos fisicamente pela maneira como nos comportamos com os outros, até mesmo pela expressão em nosso rosto. Também expressamos isso com nossas palavras. Quando conhecemos alguém por quem sentimos uma antipatia imediata ou alguém com quem tivemos uma longa relação negativa, é difícil achar palavras agradáveis para dizer. O grande Atisha da Índia, que colaborou para trazer o budismo para o Tibete, disse: "Ser amável com um convidado que veio de longe, ou com uma pessoa que esteve por muito tempo doente, ou com seus velhos pais, ser amável com essas pessoas é como meditar sobre a vacuidade." Compaixão O valor de cultivar compaixão em nossa meditação não deve ser subestimado. Um dos sutras diz: "Se você desejar despertar para o estado búdico, não se interesse por muitos Darmas diferentes; focalize em um Darma." Que Darma é esse? A grande compaixão. Tudo se volta para essa qualidade de compaixão, assim é o quanto ela é crucial para nossa prática. Quando, depois de outros doze anos, ainda não tinha tido nenhum sinal de estar mais próximo de sua meta, desistiu para sempre. Saiu do local de retiro e se encontrou com uma cadela deitada no caminho, e o corpo dela estava infestado com larvas de moscas. Ele foi tomado de tanta compaixão pela cadela que quis remover as larvas de inseto das feridas abertas no corpo dela; e também não quis ferir as larvas de inseto porque sentia compaixão também por elas. Assim, se ajoelhou e, repugnado pela visão da carne apodrecida da cadela, fechou seus olhos. Colocou sua língua para fora para lamber as larvas de inseto e retirá-las do corpo dela, mas, ao invés disso, a língua dele bateu no chão, e quando abriu os olhos, Maitreia estava parado a sua frente : "Eu nunca estive muito longe" Maitreia lhe falou, "mas seu carma não foi suficientemente purificado para que você me visse diretamente. Agora, com este ato de compaixão, seu carma foi purificado, e você está me vendo.” Regozijo Regozijo é um antídoto direto contra a inveja. Quando somos confrontados com o sucesso, felicidade ou prosperidade de alguém, podemos ou nos alegrar ou sentir inveja. Quando nossa mente é dominada pela inveja, é muito difícil apreciar as qualidades positivas dos outros, e então nos arriscamos a destruir as sementes de nossa liberação porque nossa inveja nos impede de desenvolver essas qualidades em nós mesmos. Não podemos alcançar a iluminação com nossa inveja. Foi a inveja que levou um estudante a envenenar Milarepa, que era um Buda. O estudante queria ser um professor próspero e rico, com muitos alunos. Sentindo que Milarepa o excederia em brilho, ele serviu iogurte envenenado a Milarepa, o que foi a causa incidental da sua morte. Um dos parentes de Buda, Legpe Karma, foi por muitos anos seu atendente. Ele sempre memorizou tudo o que o Buda dizia, mas nunca fez qualquer uso positivo desses ensinamentos porque a mente dele estava cheia de inveja de Buda. Quando morreu, renasceu no reino dos pretas pois todo o conhecimento que tinha adquirido tinha sido corrompido pela inveja. Houve uma vez uma mãe e uma filha, que foram carregadas por uma inundação. Elas não eram praticantes; realmente não entendiam nada sobre Darma. Mas tão grande era a compaixão delas uma para com a outra que cada uma pensou: “Se só uma pudesse ser salva, de bom grado eu me afogaria". Como de fato aconteceu, ambas se afogaram, mas em razão de sua nobre motivação, imediatamente renasceram em um reino de deuses. Houve um outro caso de um mendigo que tinha muita inveja do rei da sua região. Continuamente desejava que o rei morresse e que ele tomasse seu lugar. Isso era impossível, já que o rei tinha filhos e filhas que estavam na linha de sucessão para o trono e muitos ministros que nunca permitiriam que um mendigo comum ficasse com o trono. No entanto, a inveja era a motivação constante deste homem. Tudo o que aconteceu foi que, finalmente, um dia ele dormiu às margens de uma estrada e uma carruagem o atropelou, quebrou seu pescoço e o matou.
Entretanto, agora não somos capazes de experimentar diretamente nossa natureza búdica. Se nós fôssemos, não precisaríamos praticar, e o caminho do pináculo da Grande Perfeição seria sem sentido. Mas como disse o excelso Longchenpa: "O solo que já é inerentemente iluminado precisa se tornar novamente iluminado através da realização." A realização não é uma forma comum de pensar; é a revelação direta de nossa inata natureza iluminada. O que impede esse reconhecimento é nosso carma negativo e as distorções acidentais de nossas mentes. É como se um véu estivesse obscurecendo o fato fundamental de nossa iluminação. Uma vez afastadas essas distorções, aquilo que já era fica evidente. Nossa própria natureza iluminada é como um cristal embutido em pedra. Nós podemos ver a forma do cristal e sabemos que está lá, mas não podemos ver isto diretamente até lapidarmos a pedra e a polirmos, e então o cristal será revelado. Todas as atividades que participamos quando praticamos, resultam no processo de lapidar e polir a pedra, enquanto sabemos que o cristal está lá mas simplesmente não está evidente. Treinando no Caminho
Sectarismo e Orgulho Espiritual Orgulho espiritual é outra falha contra a qual precisamos nos precaver. É como uma gota de veneno virulento que, adicionado a um prato de comida, estraga todo o alimento. Mesmo que você chegue a alguma compreensão ou tenha alguma experiência em sua prática, não se exiba. Assim, deveríamos reconhecer esta falha e todas as nossas outras falhas, e derrotá-las com nossa prática. Não temos que nos preocupar com o desenvolvimento de nossas qualidades positivas. Elas crescerão por si mesmas. Quando jogamos uma bola de borracha no chão, não precisamos levantá-la, ela salta automaticamente para o alto. Quanto mais subjugamos e eliminamos nossas próprias faltas com nossa prática, mais nossas qualidades positivas se expressarão espontaneamente.
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